Mercado para o público LGBT ganha força no Distrito Federal

O alto poder aquisitivo e os gastos fixos menores fazem do público LGBT um seleto mercado para vários setores da economia. Sete em cada 10 pertencem às classes A e B.

Por Bárbara Vasconcelos e Diego Amorim, do Correio Braziliense
'Gosto muito de conforto, de ir a lugar bem cuidado, que tenha um conceito interessante. Não é questão de ostentação' Daniel Marques, 28 anos, músico (Foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)'Gosto muito de conforto, de ir a lugar bem cuidado, que tenha um conceito interessante. Não é questão de ostentação' Daniel Marques, 28 anos, músico (Foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Os mais de 40 pares de sapato estocados no armário e embaixo da cama denunciam o vício do músico Daniel Marques, 28 anos. Basta um passeio pelo apartamento do brasiliense, na 107 Sul, e o gosto dele por decoração também fica evidente. No quarto, há uma poltrona escolhida a dedo pelo jovem. Na sala, vários quadros e vinis dão ao ambiente a cara do morador. Sem receio de declarar sua orientação sexual e de reconhecer os ímpetos consumistas, Daniel explica que, longe do estereótipo, não é luxo ou status o que ele procura. “Gosto muito de conforto, de ir a lugar bem cuidado, que tenha um conceito interessante. Não é questão de ostentação”, afirma.

Daniel representa um público cada vez mais presente na capital federal. Exigente e de alto poder aquisitivo, essa parcela dos consumidores tem chamado a atenção de empresários. Segundo a Pesquisa Mosaico Brasil, realizada pela Universidade de São Paulo (USP), 10,8% dos homens e 5,1% das mulheres acima dos 17 anos declaram-se gays, lésbicas ou bissexuais no Distrito Federal. Mas os percentuais certamente são ainda maiores, pois o levantamento — o mais atualizado sobre o tema — foi realizado em 2008.

Outro estudo inédito revela que cerca de 70% da população LGBT do DF pertencem às classes A e B. Os números foram reunidos pela Associação Esportiva Cultural e Social Estruturação - Grupo LGBT de Brasília e pela Secretaria de Cultura do DF. Com elevado poder aquisitivo e menor comprometimento da renda com gastos fixos — a maioria não tem filhos —, LGBTs se tornaram uma freguesia chave para a economia local. “Esse público está assumindo sua condição. E não é um tipo de consumidor que tem perfil de ficar em casa assistindo à televisão, é uma clientela que tem estilo de vida voltado ao consumo”, avalia o superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do DF (Sebrae-DF), Antônio Valdir Oliveira.

De acordo com o especialista, LGBTs demandam um mercado com oportunidades concretas e que ainda pode ser mais bem explorado. Além do segmento de festas, lazer, moda e beleza, outros dois setores da economia têm muito a ganhar com essa clientela, na avaliação dele: construção civil e turismo, assim como toda a cadeia produtiva que envolve os dois ramos, a exemplo dos negócios nas áreas de gastronomia e decoração.

Estudo do Sebrae aponta que gays e lésbicas gasta cerca de 20% a mais que heterossexuais com personalização dos imóveis. Eles não poupam ao investir em móveis de qualidade e na ornamentação de casas e apartamentos. “Essa população tem uma disponibilidade financeira maior e o desejo de morar bem. Por isso, não economizam na questão imobiliária e com os periféricos, como objetos de utilidade doméstica e decoração, para customizar o lar do seu jeito”, explica o superintendente do Sebrae-DF. No ramo do turismo, a diferença de gastos entre o público LGBT pode chegar a 30%.

Maioria jovem
A partir de entrevistas com 600 pessoas em estabelecimentos e eventos LGBTS, a Secretaria de Cultura do DF e a Associação Esportiva Cultural e Social Estruturação - Grupo LGBT de Brasília traçaram um perfil sobre o consumo de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais na capital federal. Segundo o levantamento, a maioria dessa população é jovem — 37,8% têm de 18 a 23 anos e 32,3% estão na faixa etária de 24 a 29 —, mas possui elevado grau de instrução. Pouco mais de 80% têm ao menos o ensino médio completo, sendo que 19% já concluíram a graduação e 13,5% têm algum título de pós-graduação.

O mineiro Anselmo Leite, 25 anos, é um retrato desse grupo: jovem, porém já bastante qualificado. Há sete anos, o rapaz que estudou publicidade no Instituto Superior de Brasília (Iesb) inaugurou a própria agência de propaganda em parceria com dois colegas. Com o negócio que emprega atualmente oito pessoas, ele paga as contas do apartamento na Asa Norte e ainda consegue manter um padrão elevado de consumo. “Até porque não preciso me preocupar com colégio de filho, essas coisas. Posso investir mais em viagem bacana, roupas, tratamento estético”, conta o publicitário, que acabou de retornar de uma viagem para Las Vegas — a terceira do rapaz aos Estados Unidos.

 
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