Pesquisador que descobriu o vírus da Aids luta para erradicar a doença

Luc Montagnier acredita que a população da África é mais vulnerável. Em teste na França, vacina é esperança de cura para soropositivos.

Publicado em 31/08/13 às 23:25

Do Gay1

Foto: AP

Vencedor do prêmio Nobel de Medicina Luc Montagnier sonha em exterminar o vírus que ele mesmo descobriu em 1983.
Nos anos 80, a Aids surgiu como uma sentença de morte e espalhou uma epidemia de preconceitos ao ser chamada de ‘câncer gay’. No Brasil e no mundo, ela interrompeu carreiras brilhantes, como as de Cazuza, Fred Mercury, Renato Russo, Henfil e Betinho. Passados trinta anos, notícias animadoras trazem alento aos 34 milhões de portadores do vírus HIV ao redor do mundo.

O vencedor do prêmio Nobel de Medicina Luc Montagnier, que comanda a Fundação Mundial de Pesquisa e Prevenção da Aids, sonha em exterminar o vírus que ele mesmo descobriu em 1983. “A esperança é poder dizer a alguém que não precisa da triterapia. Ela funciona muito bem nos primeiros 6 a 9 meses, mas depois de 10 ou 20 anos, é muito difícil”, destaca.

Segundo ele, os coquetéis antirretrovirais aumentam a expectativa de vida dos pacientes, mas diminuem sua qualidade. “Antes, era necessário tomar muitos comprimidos. Hoje, combinamos várias pílulas em uma só. Esses inibidores são mais toleráveis, mas só são acessíveis para a elite dos países desenvolvidos”, aponta. O pesquisador lamenta que a Aids já não preocupe tanto quanto antes, principalmente os jovens. “Eles acham que é uma doença tratável. Eles têm essa ideia de que existem meios de proteção”, diz.

Atualmente, Montagnier está focado em conter a epidemia na África, onde – acredita – a população seria mais vulnerável do que em países ricos. “Muitas ficam com baixa imunidade por causa da má alimentação e podem contrair a infecção. Se temos um bom sistema imunológico, uma boa alimentação e boa higiene, vamos nos defender melhor contra a infecção do vírus da Aids”, afirma.

Vacina é esperança de cura
Em Marselha, outro grupo de pesquisadores franceses testa uma vacina que pode ser a solução definitiva. Há 15 anos, o laboratório de Ewann Loret vem desenvolvendo uma molécula que poderá ajudar a destruir o vírus HIV. A vacina já deu resultados animadores em experiências in vitro e com animais. Agora, começa a ser testada em seres humanos.

No total, 48 voluntários soropositivos e em tratamento com coquetéis participam do estudo. Três dos quatro grupos formados recebem quantidades diferentes da vacina, enquanto o outro recebe um placebo. Cada paciente vai ser vacinado três vezes, com um mês de intervalo entre cada dose. Em seguida, eles interrompem o tratamento com antirretrovirais por dois meses. “Se descobrirmos a dose, já será um sucesso, porque já saberemos que a vacina funciona”, aponta Loret. A segunda etapa, na qual serão testados mais pacientes, deve começar no fim do ano e a expectativa é que a pesquisa seja concluída em 2015.

O alvo da vacina é uma proteína chamada transativador de transcrição viral (TAT), que envolve a célula infectada pelo HIV, permitindo que ele passe despercebido pelas defesas do organismo. A injeção tem uma molécula que se cola a essa proteína traiçoeira e alerta o sistema imunológico para que ele identifique a infecção e produza anticorpos. “É muito difícil fazer com que o sistema imunológico reconheça essa proteína, porque ela se parece com algumas proteínas normais no nosso corpo”, explica Loret.

A vacina terapêutica é uma vantagem em relação aos medicamentos. “Ela ensina o sistema imunológico a criar sua própria droga. Os anticorpos são medicamentos naturais que aprendemos a fazer. Infelizmente, no caso da Aids, não conseguimos fabricar essas drogas naturalmente”, diz o pesquisador. Segundo ele, o tratamento vai ser mais acessível para quem mora em regiões mais pobres e isoladas, porque seriam necessárias apenas algumas doses da vacina, enquanto medicamentos devem ser tomados diariamente.

Mas preço e eficácia, porém, não são suficientes para garantir que o tratamento chegue a quem precisa. “Tem que ser uma vacina termoestável, que não se estrague. É importante que a aplicação seja o menos dolorosa possível”, avalia o médico e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio, Reinaldo Menezes.

Outra esperança para os portadores do vírus HIV apareceu recentemente nos Estados Unidos. Um recém-nascido soropositivo foi submetido a um tratamento retroviral e, três anos depois, já não apresentava qualquer sinal da doença. São esforços bem-vindos para vencer um inimigo poderoso. “É um vírus que muda o tempo todo, então é um grande desafio, mas a gente não deve desanimar”, afirma Menezes.
 
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