Cruzada contra LGBTs na Rússia inclui ‘safári’ homofóbico

Nova legislação discriminatória do governo Putin incentiva crescente atitude de intolerância na sociedade.

Publicado em 15/09/13 às 00:29

Por Sandro Fernandes*

Foto: MAXIM SHEMETOV/REUTERS

Militantes homofóbicos pisam na bandeira símbolo do movimento LGBT durante protesto em Moscou.
Por módicos 250 rublos (R$ 18), qualquer pessoa pode participar de uma caça em um safári na Rússia. Se a ideia de caçar animais já soa cruel, imagine quando o alvo do “safári” são lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. É esta a ideia que o grupo Occupy Pedofilia está colocando em prática na Rússia e em países vizinhos. Muito popular na blogosfera russa, o movimento já tem mais de 170 mil seguidores em uma de suas páginas. O objetivo do grupo é a criação de um “banco de dados de pedófilos, para que qualquer cidadão russo possa saber se tem algum colega, professor ou médico” que se encaixe neste perfil. A caça é feita através da internet e supostos pedófilos — que em quase todos os casos são, na verdade, apenas jovens LGBT — são sujeitos a humilhações diante da câmera. Em seguida, os vídeos são publicados na página do Occupy Pedofilia, onde podem ser acessados livremente.

“Você é veado? Você sabe que isso é errado? Você sabe que isso influencia as nossas crianças?”, grita no vídeo um dos membros do Occupy a uma das vítimas, cercada por cinco participantes da caça. “Olha pra câmera e diz que você não vai fazer isso de novo”, insiste outro participante, enquanto um terceiro pinta o rosto da vítima e lhe dá pontapés. As cenas são fortes e pelo menos 250 vídeos deste tipo podem ser encontrados nas redes sociais russas. Em alguns casos, a vítima é forçada a beber urina e a confessar que é um pedófilo.

Unanimidade no parlamento
O grupo foi fundado na Rússia há um ano pelo ex-skinhead Maksim “Tesak” Martsinkevich, que cumpriu uma pena de três anos por incitação a crimes de ódio étnico.

"A Rússia não quer gays, não quer a tolerância do Ocidente" diz Tesak em entrevista por telefone ao GLOBO.

O grupo já tem representantes na Ucrânia e na Bielorrússia e pretende se expandir. Em agosto, um adolescente do Uzbequistão morreu depois de ter sido torturado por membros do grupo Occupy Pedofilia.

Ativistas LGBT russos acusam o governo de incentivar a cruzada 'antigay' através de novas leis.

"O governo legitima estas agressões porque cria leis que confundem as pessoas. Quem antes era indiferente aos homossexuais agora acha que tem a missão de limpar a Rússia do perigo ocidental, representado pelos gays" explica o ativista LGBT Sergey Ilupin.

Em 2006, a região de Ryazan aprovou uma lei local proibindo a propaganda positivas de direitos LGBT e marcha ou parada do orgulho. Em 2011, foi a vez da região de Arkhangelsk aprovar a mesma normativa. No ano seguinte, a segunda maior cidade da Rússia, São Petersburgo, decretou uma lei similar, e o assunto chamou a atenção da comunidade LGBT internacional. O autor da lei, Vitali Milonov, chegou a acusar Madonna e Lady Gaga de promoção da homossexualidade durante os shows que as cantoras fizeram na cidade. Segundo Milonov, a homossexualidade é “uma doença facilmente tratada com jejum e oração”.

Entre 2006 e 2013, dez regiões russas aprovaram legislações locais contra o que chamam de promoção da homossexualidade. Em alguns casos, as leis falam de “homossexualismo, sodomia, bissexualismo e pedofilia”.

Em junho deste ano, a lei passou a ser federal na Rússia. A Duma (câmara baixa do Parlamento russo) aprovou por unanimidade a proibição da distribuição de “propaganda de relações sexuais não tradicionais”.

O descumprimento da lei prevê multas que variam entre 4 mil rublos (R$ 290), para indivíduos, e 1 milhão de rublos (R$ 72 mil), para organizações.

"Ninguém no meu trabalho sabe que eu sou gay. Contei só para o meu irmão e ele parou de falar comigo. Aqui em Moscou temos apenas dois lugares gays e sempre há casos de agressões nas saídas das festas. Prefiro encontrar amigos em casa" conta o jovem russo Vladimir (nome fictício). "E fora das grandes cidades a situação é muito pior".

Apesar da pressão internacional, as autoridades russas discordam de que a legislação seja homofóbica. Vladimir Putin disse recentemente em entrevista à TV estatal do país que “as pessoas de orientação sexual não tradicional não são discriminadas nem profissionalmente nem em seus salários”. O presidente russo reiterou que todos são cidadãos plenos, com igualdade de direitos. E completou:

"Asseguro que trabalho com gente assim (gays) e às vezes os condecoro por suas conquistas em um ou outro âmbito".

O ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, disse que a comunidade LGBT não está sendo discriminada, mas ressaltou que “não será permitido que os gays promovam agressivamente seus valores, que são diferentes dos da maioria, e os imponham às crianças”.

O patriarca Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa Russa, disse que a ideia de uma relação entre pessoas do mesmo sexo é “um sinal muito perigoso do apocalipse”.

Apelo aos conservadores
Em entrevista o analista Alexander Kliment, diretor de pesquisa do Eurasia Group, explicou que a estigmatização oficial de LGBTs na Rússia deve ser entendida como parte da mudança geral do Kremlin para uma retórica menos liberal sobre valores e identidade russa:

"Como Putin continua a perder apoio dos mais progressistas, ele está tentando reforçar o seu apoio entre a população russa mais conservadora, particularmente sobre a questão da homossexualidade".

Durante o Mundial de Atletismo realizado mês passado em Moscou, o assunto LGBT esteve mais uma vez no centro das polêmicas. A recordista mundial de salto com vara, Yelena Isinbayeva, defendeu as leis homofóbicas do país e o governo russo durante uma coletiva de imprensa.

"Na Rússia nós nos consideramos normais, pessoas com um padrão. Vivemos os meninos com as meninas, as meninas com os meninos... isso vem da História. Somos diferentes dos europeus e das pessoas de outros lugares. Nós somos contra a publicidade (da homossexualidade), mas não somos contra a escolha de cada pessoa" afirmou na ocasião.

Em janeiro deste ano, o âncora da televisão estatal russa KontrTV, Anton Krasovsky, foi imediatamente demitido de seu emprego quando revelou sua orientação sexual durante uma transmissão ao vivo. Krasovsky disse que tinha nojo da legislação que havia sido proposta e que meses mais tarde foi aprovada.

Em maio, um jovem da cidade de Volgogrado foi violentado sexualmente com uma garrafa de cerveja e em seguida teve seu crânio esmagado em um crime de motivação homofóbica. O rapaz teria revelado sua homossexualidade aos amigos, que confessaram o ataque.

* Especial para O Globo
 
Encontre-nos no Google+