Legalização do casamento igualitário na França deixa 'cicatrizes' na Igreja Católica

Por Stéphanie Le Bars, Do Lemonde

“Corajosa” para alguns, “fraca e desanimadora” para outros, a decisão de dirigentes da Igreja Católica de expulsar de um treinamento interno uma filósofa especialista em “ética do cuidado” diz muito sobre o estado das dissensões que persistem entre os católicos após as tensões ocorridas durante debates sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2013.

Fabienne Brugère, filósofa da Universidade Bordeaux-3, deveria dar uma palestra, na quarta-feira (19), como parte de uma sessão de treinamento intitulada “Tomar conta do outro, um apelo feito a todos”, e destinado a cerca de 90 dirigentes católicos especialistas em questões de família. O tema escolhido parecia suficientemente consensual para os responsáveis pelo treinamento para “acalmar” os ânimos após as brigas do ano passado.

Ledo engano! Brugère é de fato conhecida por sua reflexão sobre a ética do cuidado, “compatível com o pensamento cristão sobre a solicitude”, segundo dirigentes católicos. Mas essa amiga de Vincent Feltesse, o candidato socialista à prefeitura de Bordeaux, membro do grupo de trabalho sobre a filiação conduzida por Irène Théry, também assinou trabalhos sobre a especialista em estudos de gênero Judith Butler, e nunca escondeu sua proximidade com a filósofa americana, seu apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo ou sua defesa do direito ao aborto. São elementos que as alas mais intransigentes da Igreja fizeram questão de explorar.

Para além dos círculos ultraconservadores
Uma “súplica” pedindo o cancelamento dessa palestra foi publicada pelo site tradicionalista “Le Salon Beige”. Misturando considerações antropológicas e políticas, esse texto alegava que, organizando esse treinamento, “os bispos são contra o combate dos laicos católicos a essa funesta ideologia do gênero e estão querendo salvar um governo em apuros”. “Essa petição foi amplificada pelos opositores radicais à linha de abertura defendida por alguns na Igreja”, constata Jérôme Vignon, membro do conselho Família e Sociedade, o órgão da Conferência dos Bispos da França que havia convidado a acadêmica.

Mais preocupante ainda aos olhos dos responsáveis pelo treinamento é o fato de que essa programação suscitou “temores e inquietações” para além dos círculos ultraconservadores. Foi isso que teria levado Dom Jean-Luc Brunin, presidente do conselho Família e Sociedade, a cancelar a palestra. Diante de um protesto “minoritário”, ele considerou que não havia “condições de diálogo” e que era mais prudente evitar “divisões”.

“É verdade que hoje tudo aquilo que diz respeito ao ‘gênero’ é brandido como um espectro e mostrado como o diabo por certas correntes”, constata Monique Baujard, diretora do serviço nacional Família e Sociedade, que lamenta a falta de conhecimento sobre esse conceito. “Mas não podemos fingir que esses temores não existem”, ela defende. “Preferimos a paciência ao enfrentamento. É um passo para o lado, não um passo para trás.”

“Atitudes intransigentes”
Essas novas tensões revelam sobretudo as sequelas da aprovação do casamento igualitário, que desestabilizou muitos fiéis e expôs a dificuldade dos cristãos de dialogarem entre si. “A oposição à lei Taubira levou ao ressurgimento de atitudes intransigentes que prejudicam qualquer processo de diálogo dentro da Igreja”, acredita Vignon.

“Pessoalmente, não tenho nada contra essa filósofa”, afirma o padre Denis Metzinger, representante da pastoral familiar de Paris ao site “Família Cristã”. “Mas em uma jornada de treinamento temos direito de esperar outra coisa, quando se é continuamente agredido por essas ideologias desconstrutivistas e se tem como missão anunciar, como acaba de dizer o papa, “o luminoso plano de Deus para a família”, ele explica.

Para além dessa nova polêmica associada aos estudos de gênero, o caso revela um problema “muito mais amplo” dentro da Igreja, reconhece Baujard. “O verdadeiro desafio é conseguir dialogar dentro da Igreja”, acredita também Vignon, que defende um catolicismo de abertura. Um paradoxo, neste momento em que o papa Francisco vem incentivando os fiéis a embarcarem em um diálogo em todas as direções.

No entanto, o cancelamento da palestra continua sendo incompreendido por muitos. Em um editorial, o jornal “La Croix” lamentou, na quinta-feira (13), esse “recuo sob a pressão de uma minoria eleita polícia do pensamento” e “uma chance perdida de dialogar”. Com esse caso, “o episcopado está se submetendo ao domínio da extrema direita”, avalia por sua vez o “Témoignage Chrétien”. Já Brugère está preocupada que “a Igreja ceda às correntes que não querem nem treinamento, nem diálogo”.

“O incidente foi encerrado”, acredita Baujard. Mas as tensões que ele despertou estão longe de serem apaziguadas. É até provável que elas perturbem a próxima assembleia plenária dos bispos, prevista para o início de abril em Lourdes.
 
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