Gato, inteligente e engajado, o carioca João Junior é o mais novo colunista do Gay1

Diretamente do Rio de Janeiro, o Portal contará com o reforço de suas ideias na coluna semanal "Cariocando".

Publicado em 25/06/16 às 14:28

Do Gay1 RJ

Gato, inteligente e engajado, o carioca João Junior é o novo colunista do Gay1

Foto: Arquivo Pessoal

João é empreendedor, mestre em antropologia e sociologia pela UFRJ, ex-líder mórmon, militante político e social.
O Gay1 tem o prazer de anunciar seu mais novo colunista, João Junior. Diretamente do Rio de Janeiro o portal contará com o reforço de suas ideias na coluna "Cariocando" com textos semanais e muitas dicas da Cidade Maravilhosa.

Empreendedor, mestre em antropologia e sociologia pela UFRJ, ex-líder mórmon, militante político e social, João, embora ainda pouco conhecido do grande público, tem tido papel de destaque em muitas conquistas e ações importantes na defesa dos direitos humanos no Brasil, em especial na luta pelos direitos civis da comunidade LGBT, não apenas no Rio de Janeiro, mas no país todo.

Em seu primeiro texto, João já mostrou que a cena LGBT da cidade não fica só entre os postos 8 e 9 de Ipanema. "É na Região entre o Centro e Lapa onde tudo literalmente acontece. A área abriga a maior variedade e quantidade de estabelecimentos voltados para o público LGBT".

Gato, inteligente e engajado, o Gay1 entrevistou o carioca que falou sobre religião, homofobia, politica... Confira:

Embora o Rio de Janeiro seja conhecido mundialmente como grande destino LGBT a atual cena da cidade parece meio apagada. Como você espera escrever sobre essa cidade tão contraditória?
Nossa, essa é uma boa pergunta (risos). Eu aceitei o desafio e como todo desafio a agente nunca sabe bem aonde ele vai dar. O Rio de Janeiro tem uma potência muito grande. A cidade por sí só é uma imensa formadora de opinião. Não acho que a cena LGBT da cidade, seja quando falamos de entretenimento ou de protagonismo sócio-político, esteja apagada. O que acontece é que cada vez mais a mistura se consolida. As pessoas circulam por diferentes espaços, vão em festas chiques privadas, passam pela feira do Lavradio, bebem todas na Lapa, pegam o trem até Madureira e também fervem na The Week. Espaços muitos exclusivos e rotulados (nesse sentido) acabam não fazendo muito sentido. Mas também não tem como negar que o tamanho da cidade faz tudo ser meio provinciano as vezes.

Como assim?
O Rio de Janeiro é bem menor que São Paulo. As coisas “badaladas” no Rio ainda são centralizadas no Eixo zona sul x centro. O carioca tem fama de despojado e mais libertário, mas os gays aqui da cidade ainda parecem estar um passo atrás dos gays de São Paulo. Em São Paulo por exemplo já vemos muitos mais casais gays de mãos dadas nas ruas, beijando no metrô e nas praças etc. Mas acredito que a cidade tenha potência para avançar nesse protagonismo. Só precisamos achar o caminho.

Você foi líder mórmon mesmo? Que mudança!
Simmmm! Mais do que uma mudança eu vejo como um percurso. Do jeito que eu sou inquieto e sempre tentando avançar um pouco mais, acho que eu fatalmente trilharia esse caminho. Eu conheci a religião mórmon quando eu tinha 10 anos e fui frequentando, até que uma hora eu acreditava tanto que segui por minha própria conta. É uma vertente bem conservadora do Cristianismo, mas ao mesmo tempo possui uma estrutura de acolhimento que encanta em um primeiro momento. Ter ficado na igreja por 12 anos me ajudou em diversos pontos da minha formação.

Gato, inteligente e engajado, o carioca João Junior é o novo colunista do Gay1

Foto: Arquivo Pessoal

"Toda a minha adolescência, incluído aí a puberdade, foi dentro da religião."
Como uma religião tão conservadora pode ter ajudado?
Hoje com o devido distanciamento eu percebo que a igreja serviu de importante suporte me dando uma estrutura emocional e de valores que muitas vezes eu não conseguia ter em casa. Minha mãe é uma grande mulher, guerreira, batalhadora. Mas minha família era muito pobre e ao contrário a igreja é muito rica. Então eu ia aprendendo na igreja códigos e hábitos que eu não tinha acesso normalmente na escola pública da periferia. Na igreja eu aprendi a falar em público, aprendi a me expressar com clareza, aprendi a falar inglês, aprendi a me posicionar em relação as diversas situações da vida. Com o passar do tempo e conforme fui amadurecendo eu fui usando essas habilidades para outras coisas que eu achava importante. Quando eu estava preparado para enfrentar esse mundo doido que a gente vive eu simplesmente parei de ir.

Como era ser gay em uma religião como essa?
Muito conflituoso. Imagina eu entrei na igreja criança e saí adulto. Toda a minha adolescência, incluído aí a puberdade, foi dentro da religião. Eu sofria muito, e um sofrimento silencioso, por que não tinha com quem comentar, não tinha com quem falar. Eu realmente achava que tinha algo errado comigo e que quanto mais dedicado a igreja eu fosse de alguma forma eu iria virar hétero. Ao mesmo tempo eu sempre achei tudo muito sem sentido. Qual era o problema de eu ser gay? Não entendia. Para complicar mais as coisas toda a doutrina mórmon se baseia na crença de que para voltar a viver com Deus todos precisaremos estar casados com alguém do sexo oposto. Eu não tinha o menor talento em cantar as moças. Sempre fui meio brucutu, rsrsrs. Além de gay também tinha o “detalhe” de eu ser negro. Até a década de 80 negros não podiam ter o sacerdócio nem serem líderes na igreja. Mesmo com essa mudança, vez ou outra tinham episódios bem complicados de racismo. Uma “piadinha”, uma insinuação. Era tudo muito complicado. Mas, como sempre a vida é interessante. A igreja também é cheia de gays. Muitos mesmo. Com o tempo você vai percebendo. Minha primeira ida a uma boate gay na vida foi acompanhado um membro nascido na igreja, rsrsrs.

Muitos homossexuais se dedicam a religiões bem conservadoras e rígidas. É uma tentativa de disfarçar a própria homossexualidade em um contexto hostil. Muitos gays acreditam que quanto mais rígida for uma instituição, mas facilmente eles vão conseguir mudar sua orientação sexual. Igrejas conservadoras no geral estão cheias de homossexuais enrustidos. Muitas lideranças religiosas percebem isso e dedicam boa parte de suas pregações e práticas reforçando o discurso homofóbico e heterosexista como tentativa de manterem esses homens e mulheres sob o cabresto de suas lideranças. Algumas religiões aprenderam a instrumentalizar a homofobia internalizada de alguns homossexuais como modo de manterem um bom quantitativo de fiéis seguidores. Mais tarde alguns partidos políticos copiaram a mesma receita perversa.

Falando em política, você foi assessor do único parlamentar gay assumido do país. Como foi trabalhar com ele?
Na maioria das vezes foi muito, muito bacana. Na equipe do mandato eu pude usar o espaço que me foi dado como uma ferramenta para ajudar muita gente. É muito bacana quando você vê uma ideia sua ganhando forma e isso repercutindo no empoderamento das pessoas no país inteiro. Depois de um tempinho na equipe eu fui alçado a condição de coordenador da Campanha Nacional pelo Casamento Civil Igualitário junto com outro colega de trabalho, o Jornalista Argentino Bruno Bimbi. Nossa campanha foi muito bem-sucedida. Fizemos uma série de vídeos com muitos artistas importantes. Trabalhamos na sensibilização de juízes e desembargadores, quando os estados ainda estavam emitindo provimentos estaduais sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu ligava para os juízes corregedores, até ajuda para escrever provimentos eu dei, rsrsrs.

Foi lindo ver como temos muita gente oxigenada e progressista no judiciário brasileiro. Pude articular diretamente a produção da petição que foi ao CNJ pedir que o mesmo emitisse o provimento nacional sobre o tema, e fomos bem sucedidos. A resolução 175 do CNJ não caiu do céu. Foi fruto desse trabalho. Meu e de muitos outros parceiros.

Você é o criador do vídeo lindo #NossaFamíliaexiste?
Sim, do vídeo e do conceito da campanha. Eu achava um absurdo a discussão sobre o projeto de lei segregador apelidado ironicamente de “estatuto da família”. Achava que os parlamentares debatiam o projeto como se o Brasil estivesse ainda decidindo se os homossexuais existem ou não. Nós já conquistamos o direito ao casamento civil, já conquistamos o direito a adoção. Já podemos fazer reprodução assistida, e muita gente fala do “casamento gay” como se estivéssemos consultando os homofóbicos se eles permitem ou não. Com a campanha quis mostrar que a gente já existe, já estamos ai e não é aceitável sob nenhum contexto qualquer retrocesso que retire de nós direitos civis já conquistados e cada vez mais consolidados, #NossaFamíliaExiste e merece todos os direitos e reconhecimentos sociais.



O que achou da campanha: #NossoAmorexiste? Se sentiu copiado?
Não, em hipótese nenhuma. Ao contrário. A ideia sempre foi essa mesmo: Empoderamento. Quanto mais gente produzir coisas bacanas que mostrem que podemos sim ser felizes e bem sucedidos, que temos o controle sobre nossas vidas, que podemos decidir os rumos da nossa existência melhor.

Como você vê esse movimento de alguns LGBTs que apoiam publicamente homofóbicos como Marco Feliciano e Bolsonaro?
Uma das coisas mais perversas que a homofobia faz com os homossexuais é tentar incutir em nós um profundo senso de inferioridade. Chamamos isso de homofobia internalizada. É algo que infelizmente alguns homossexuais não conseguem resistir a tentação de, para serem aceitos, reproduzirem o discurso que os desumanizam. É uma tentativa esquizofrênica de manter as relações com pessoas que eles gostam, mas que temem perder por serem homossexuais. É triste quando ainda jovem descobrimos que o amor e carinho que muitas vezes julgávamos incondicionais podem desaparecer simplesmente por que não nascemos heterossexuais. É doloroso quando um gay descobre que o amor da mãe não é mesmo ilimitado, que o pai que o protegeria agora o agride, que os amigos da escola o veem como algum tipo de aberração. Sabe os X-men expulsos de casa pela família por serem diferentes? Essas cenas acontecem na vida real todos os dias. Então pare lidarem com essa arapuca emocional que a homofobia social nos empurra, muitos gays e lésbicas se levantam e dizem “olha eu sou homossexual sim, mas não sou igual aqueles lá não. Não sou militante, não quero os mesmos direitos que vocês heterossexuais tem e aceito vocês me humilharem de vez em quando”. E lógico esses gays chamam a atenção e são apoiados em especial por quem sempre espera uma postura subalterna de gays, negros e mulheres.

Nossa! Pelo visto vai ser ótimo ter você e suas contribuições.
Eu que agradeço o convite e o espaço. Leiam a coluna Cariocando no Gay1 gente. Mandem sugestões de assunto. Compartilhem os vídeos e posts. Prometo manter a coluna sempre atualizada. Já estou quebrando a cabeça para pensar nos assuntos depois que essa pequena série sobre o centro e a lapa se esgotarem. Forte beijos. Leiam a gente!

Acesse e confira a coluna Cariocando: gay1.com.br/joaojunior
 
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