Jovem denuncia ataque homofóbico por usar saias no Centro de BH

Rapaz registrou ocorrência de agressão contra homem por empurrões e cabeçadas na Rua da Bahia. Ele também reclama do comportamento de policiais ao registrar a denúncia

Publicado em 29/06/16 às 21:18

Por Guilherme Paranaiba, Márcia Maria Cruz

Jovem denuncia ataque homofóbico por usar saias no Centro de BH

Foto: Reprodução/Facebook

Lázaro dos Anjos escreveu post no Facebook falando sobre o ataque que sofreu.
O autônomo Lázaro Henrique dos Anjos Silva, de 23 anos, relata ter vivido momentos de pânico na última sexta-feira no Centro de Belo Horizonte. Em meio ao movimento intenso no cruzamento da Rua da Bahia com a Avenida Augusto de Lima, ele foi ofendido e empurrado para o meio da rua, correndo risco de ser atropelado, por estar usando saias. Lázaro conversava com um amigo transexual, o que ele acredita também ter motivado o ataque. A situação foi relatada em um desabafo no perfil dele no Facebook e já tem mais de 400 curtidas. Ele registrou boletim de ocorrência na Polícia Militar, mas denuncia que também sofreu preconceito dentro de uma unidade policial e pretende procurar a Polícia Civil para que o caso seja investigado.

Lázaro caminhava com um amigo transexual pela Rua da Bahia por volta das 14h quando parou para conversar na esquina com a Avenida Augusto de Lima. Nesse momento, ele relata que ouviu diversas ofensas, entre as quais “nojento”, “aberração” e “não sei se você é homem ou um traveco”. Sem entender o motivo dos xingamentos, Lázaro viu o homem loiro, com cerca de 1,90 metro e vestindo jaqueta de motoqueiro se aproximar e começar a dar cabeçadas contra ele. “Depois disso, ele olhou para um lado e para o outro e falou que eu tinha que morrer. Me pegou pela manga da minha camisa e me puxou em direção à Rua da Bahia. Meu amigo que estava junto me puxou de volta, o que eu acho que evitou o pior. Meu amigo saiu correndo de medo”, afirma o jovem.

O agressor, então, subiu em uma moto e fugiu pela Rua da Bahia. Lázaro acredita que foi vítima de uma tentativa de homicídio, pois poderia ter morrido se algum carro passasse na hora em que ele foi jogado na rua. O caso de homofobia aconteceu a poucos metros da 4ª Companhia do 1º Batalhão da Polícia Militar, que fica no quarteirão seguinte da Rua da Bahia. “Eu entrei em pânico na hora e só consegui correr para casa, onde eu estaria seguro. Me acalmei e contei com a ajuda de dois amigos, que foram comigo até a unidade da PM”, afirma.

Ao chegar na 4ª Companhia, ele diz ter se sentido discriminado. "O policial me perguntou como eu deixei que uma coisa dessa acontecesse. Se fosse ele, bateria na pessoa que fez aquilo comigo. Falei que não fui educado para bater em ninguém. Além disso, eu estava vestindo saia e fui examinado de cima para baixo várias vezes”, complementa. Ele também conta que o militar fazia algumas piadas com a situação e brincou novamente na hora de preencher o gênero da vítima no boletim de ocorrência. “Ele falou que colocaria meu gênero como indefinido, mas eu disse que tenho definição, sou do gênero fluido. Também vieram piadas com a minha cor, pois sou negro da pele mais clara e ele também ridicularizou a situação. Nesse momento eu e meus amigos mostramos que aquilo não era uma brincadeira”, conta Lázaro.

Do momento em que entrou na unidade até o fim do registro foram cerca de três horas, segundo o autônomo. O que era para ser o início de uma solução para o caso se transformou em decepção. “A conclusão que eu tiro é que a sociedade não está pronta para lidar com pessoas como eu. Sou uma pessoa normal, faço tudo como quem é normal. Só que o normal para eles é ser masculino, heterossexual”, desabafa. "Eu vou procurar a Polícia Civil para que esse caso seja investigado e outras pessoas não sejam vítima do que eu fui”, completa.

O major Sandro de Souza, da assessoria de comunicação do Comando de Policiamento da Capital (CPC), informou que os cursos de formação da Polícia Militar tanto para soldados como oficiais preveem “o estudo e discussão ampla sobre a questão da diversidade”. “O cidadão é nosso cliente, não importa o gênero, se é branco, negro ou roxo”, afirmou. Em relação à queixa de discriminação sofrida, no momento de realização do boletim de ocorrência, o major informou que precisa ser investigado. Nesses casos, segundo ele, a orientação é procurar o órgão de correição da própria PM e órgãos fiscalizadores, como Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil e as comissões de segurança pública e direitos humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (Alemg).
 
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