Escola do DF fez festa junina em que noivo foge com outra pessoa do mesmo sexo

O debate ultrapassou a iniciativa, e professores, alunos e pais discutiram o papel da comunidade na formação de uma sociedade inclusiva.

Publicado em 06/07/16 às 10:19

Por Otávio Augusto

Escola do DF fez festa junina em que noivo foge com outra pessoa do mesmo sexo

Foto: Breno Fortes/D.A Press

Estudantes e professores decidiram aceitar o desafio de fazer uma quadrilha "diferente": festa e discussão para evitar o conservadorismo em sala de aula.
Qual tipo de educação os jovens daqui a 10 anos vão carecer para viver numa sociedade com tamanha diversidade? Segundo alunos e professores, é preciso encontrar um caminho para a pluralidade das pessoas, engajando os jovens no mundo das diferenças, preparando-os para serem cidadãos completos. No sábado, o Centro de Ensino Médio 1 do Paranoá recebe pais, estudantes, docentes e quem mais quiser enaltecer a multiplicidade de gênero, sexualidade, raça e religião. Lá, uma festa junina diferente terá lugar: o noivo foge com outro homem e todo tipo de amor é aceito.

No processo de formação dentro do colégio, a comunidade colocou como necessário haver respeito, lapidar conceitos, esclarecer informações e estabelecer o diálogo. Não há espaço para a intolerância, segundo os envolvidos. Para os mestres, o desafio é prezar pelo currículo escolar e, ao mesmo tempo, trazer adaptações aos conteúdos e atividades desenvolvidas, com a integração da comunidade escolar. “Nossa intenção é mostrar as diferentes formas de ser e amar. Temos que dar representatividade a todas as pessoas dentro de uma escola. Isso passa por questionamentos. O que é normal? Qual o padrão?”, explica o professor de filosofia Vinícius Silva de Souza, 35 anos.

Vinícius idealizou o conceito da festa junina. “Estamos colocando as pessoas numa festa tradicional, mas com igualdade e integração. Nenhum comportamento será excluído ou rebaixado”, argumenta. O discurso do professor encontra reflexo na comunidade escolar. Todos acreditam que o conservadorismo social têm afetado as salas de aula e chegado às famílias dos estudantes.

Em quase três horas de conversa na manhã de ontem, alunos, professores e pais refutaram comportamentos sociais condenáveis. A estudante do segundo ano Adriane Torquati, 16 anos, é negra, evangélica e defensora da liberdade pessoal. “Eu percebo que as pessoas disfarçam o preconceito nas pequenas coisas. Não gosto ter a sensação que essas práticas se perpetuam”, pondera a menina, que garante um papel progressista da festa.

Resistência
Figuras de autoridade, como pais, líderes religiosos e educadores, exercem papel primordial na consolidação dos avanços, dizem os livros de pedagogia. “Na minha casa, ainda existe a máxima de que homem não lava louça e isso é uma forma de acentuar o machismo”, critica Gustavo Rodrigues, 16, do segundo ano. No sábado, ele forma com um amigo de classe um casal da quadrilha. “Houve questionamentos, mas é importante propagar os conhecimentos. Tem resistência, é difícil, mas é preciso. Se não por mim, pelo outro”, explica. O professor Vinícius completa: “Isso é o essencial. As pessoas querem falar sem ter a predisposição de ouvir. A mudança vem com o diálogo”.

O formato da festa, inicialmente, causou embaraços na escola. A relutância cedeu lugar à diversidade. “Reunimos os professores e debatemos. Analisamos também a repercussão entre os alunos. A festa é uma convergência dos assuntos trabalhados em sala de aula”, ressalta o vice-diretor do CEM 1 do Paranoá, Nanderson Syrlon Pereira.

A professora de sociologia Luciana Ribeiro defende que cada um deve ser um agente disseminador dos conceitos de aceitação e respeito. A comemoração junina, segundo a docente, vai desconstruir conceitos arraigados de preconceito. “Um dia após o estupro coletivo, no Rio de Janeiro, perguntei a opinião dos alunos. Alguns deles culparam a vítima. Depois, esclarecemos pontos importantes da liberdade sexual de cada um. Ainda hoje é preciso reforçar que ‘não’ é ‘não’ numa relação”, detalha.
 
Encontre-nos no Google+