Para protagonista do casamento igualitário, homofobia deve ter equiparação ao racismo

João Junior é um dos idealizadores da resolução do CNJ que em três anos já permitiu mais de 8.500 casamentos de pessoas do mesmo sexo.

Publicado em 29/07/16 às 21:01

Do Gay1 Notícias

Para protagonista do casamento igualitário, homofobia deve ter equiparação ao racismo

Foto: Reprodução/Facebook

João Junior luta em defender os direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.
O Brasil comemorou três anos da resolução do CNJ que regulamenta o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e que já permitiu mais de 8.500 uniões. O Gay1 bateu um papo com João Junior, idealizador da solução e um dos protagonistas dessas conquista.

O carioca, é mestre em antropologia e sociologia pela UFRJ e indica como missão de vida: defender os direitos civis da comunidade LGBT, acabar com a homofobia e estabelecer uma relação de igualdade e respeito entre as pessoas.

Três anos se passaram desde que o CNJ aprovou por unanimidade a resolução que regulamentou o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Desde então milhares de casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo foram feitos. O que essa conquista significou para o conjunto geral da população?

Hoje em qualquer cidade desse país um casal de homens ou mulheres podem ir a qualquer cartório de registro civil e dar entrada no processo de habilitação de casamento civil, como qualquer outro casal. Isso tem um impacto incalculável na autoestima e fortalecimento dessa família que está ali sendo oficialmente reconhecida pelo Estado. Durante séculos a comunidade LGBT foi ensinada de que éramos cidadãos de segunda classe. Em um longo período de tempo, nossos afetos eram demonizados e criminalizados. Hoje sermos reconhecidos como uma família e registrada é sim um avanço fundamental na luta por uma sociedade justa e igualitária. Sou grato por junto com a Arpen-RJ, o advogado Paulo Iotti e outros importantes parceiros termos conquistado isso juntos.

Foto: Célia Santos/Divulgação

A cantora Daniela Mercury com sua mulher, a jornalista Malu Verçosa que se casaram em outubro de 2014. Em três anos a resolução do CNJ já permitiu mais de 8.500 casamentos igualitários.
Você foi coordenador da Campanha Nacional de Apoio ao Casamento Civil Igualitário no Brasil. Acha que a campanha foi bem sucedida?

Sem a menor sombra de dúvidas, foi uma das campanhas sociais mais bem sucedidas dos últimos anos. Afinal o objetivo principal foi conquistado. Nunca foi do meu interesse esticar a luta por anos. O foco meu e do Bruno [outro coordenador da campanha junto com João] sempre foi a resolução do problema e a primeira coisa que eu fiz foi convidar os registradores civis para conversar; afinal, se o objetivo era viabilizar o registro de casamento, a luta deveria se concentrar na superação das dificuldades encontradas por quem presta esse serviço. De uma reunião pequena com a ARPEN-RJ saíram a idéia e os primeiros fundamentos da petição que protocolamos no CNJ e que semanas depois emitiu a resolução. O brilhante advogado constitucionalista Paulo Iotti foi uma figura fundamental nesse processo, sabendo demonstrar com precisão ao Conselho que a questão já podia ser superada administrativamente com base na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Os casos pontuais nos impulsionavam muito durante a articulação porque nos envolvíamos emocionalmente com as dificuldades das pessoas e todos os dias surgiam muitos casos. Não podíamos errar. Poucos acreditavam no êxito, mas tínhamos muita confiança na qualidade e na solidez do trabalho. Estava interessado em fazer com que um casal de moças de Teresópolis se casasse; que as dezenas de casais gays cariocas que estavam sendo impedidos concretizassem seus sonhos. Estava preocupado em ajudar um casal de senhores que moravam em Santa Cruz e o casal de jovens de 22 e 25 anos, que já sabiam o que queriam. Meu foco de vida sempre foi avançar a luta por direitos civis.

A batalha terminou?

De forma nenhuma! Estamos na luta pela equiparação da homofobia ao crime de racismo. Algo fundamental para ações pedagógicas para a população na desconstrução de preconceitos. Mais do que prender uma pessoa homofóbica, a criminalização da homofobia será um importante marco legal nas políticas públicas de combate as discriminações, tal como é a lei do racismo, a lei Maria da Penha, o Estatuto da Criança e do Adolescente ou o estatuto do Idoso. A comunidade LGBT é parte importante da sociedade e o Estado precisa dar uma resposta a essa comunidade, atualmente, ainda, uma das mais vulneráveis a crimes do ódio no mundo.

Eu fiquei muito emocionado e feliz pelo convite do Gay1 para a entrevista, permitindo um resgate histórico dos fatos e gostaria de convidar a todos e todas as pessoas diretamente ligadas a essa importante instituição a me acompanharem nas redes para que possamos pensar juntos novas soluções para os antigos problemas.

Foto: Reprodução/Facebook

João é empreendedor, mestre em antropologia e sociologia pela UFRJ, ex-líder mórmon, militante político e social.
 
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