Conheça a história de amor de Isadora e Marjorie, casal-símbolo da Rio-2016

Elas esperam que com a visibilidade que a história ganhou possam servir de exemplo para jovens LGBT.

Publicado em 13/08/16 às 13:30

Por Fernanda Schimidt

Foto: Iwi Onodera/UOL

Marjorie Enya (direita) pediu a jogadora de rúgbi Isadora Cerullo em casamento em pleno estádio durante as Olimpíadas.
Isadora Cerullo e Marjorie Enya não esperavam uma repercussão tão grande. A foto do beijo após o pedido de casamento em público e em pleno gramado rendeu manchetes ao redor do mundo e as transformou no casal-símbolo da Olimpíada de 2016.

“Somos um casal de duas mulheres absolutamente normais, que têm coisas especiais e defeitos como todas as pessoas têm. O bacana disso é que a gente passa uma mensagem de que todo mundo tem direito a ser feliz. Somos um casal de mulheres que quer ser feliz junto. Só isso”, disse Marjorie, 28, em entrevista na tarde desta sexta-feira (12), seu primeiro dia de folga após o “sim”. Ela vive em função dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos desde o fim do ano passado, quando se mudou para o Rio de Janeiro para gerenciar tudo o que acontece fora do campo no estádio de Deodoro.

O acesso privilegiado e os contatos quentes foram cruciais na hora de Marjorie planejar o pedido de casamento e montar o palco para a ocasião, logo após a cerimônia de entrega de medalhas do rúgbi de 7, na noite do último dia 8. Mas, primeiro, era necessário criar um pretexto para que a futura noiva fosse a campo.

Foto: Iwi Onodera/UOL

O casal começou a namorar há dois anos quando Isadora veio para o Brasil para integrar a seleção de rúgbi.
A seleção brasileira já havia jogado naquele dia, e o ônibus que levaria a delegação de volta à Vila sairia em breve. A gerente de mídia, então, foi acionada para contar que Isadora, 25, daria uma entrevista no campo logo após a entrega do ouro à Austrália. “Falei para as meninas irem, que não precisavam me esperar, depois daria um jeito de voltar. Mas elas disseram que queriam ver as medalhistas”, contou Isadora. Ela foi inocentemente até a namorada para pedir ajuda e organizar o retorno para o quarto: “Você sabe de transporte para depois? Tenho uma entrevista agora”, disse. Sem perder a pose, Marjorie sacou o rádio e entrou em contato com o responsável, confirmando o transporte para uma atleta. “Ele não entendeu nada”, comentou.

No campo, Isadora ainda aguardava o início de sua entrevista quando viu Marjorie pegar o microfone. “Pensei: ‘que bacana! A Marjorie vai agradecer todo mundo pelo trabalho’. Mas aí começou o discurso emocionante”, lembrou a atleta. “Nessa hora eu já estava chorando horrores. Quando ela falou que faço dela a mulher mais feliz, chorei ainda mais”, completa.

O nervosismo fez Marjorie quase errar a mão em que amarrou a fita amarela simbolizando uma aliança. No plano dela, o estádio já estaria vazio nesse momento. Porém, ao chegar lá e se deparar com um monte de gente e imprensa, teve de improvisar. “A Isadora é jogadora, não pode usar aliança. Mas achei que ia ser difícil fazer tudo isso sem ter uma aliança no final”, contou.

O casal está junto há dois anos, mas ainda não tinha conversado diretamente sobre casamento. Marjorie achou o momento apropriado e que tinha total relação com o espírito olímpico de união e amor: “A nossa história tem muito a ver com os Jogos. A gente ralou muito para estar aqui”, disse. E brincou sobre o motivo real da escolha. “Quis fazer no meio do estádio para ela não falar não”, completou, rindo. Elas dizem que o bom humor é característico desse relacionamento, repleto de pequenas provocações, brincadeiras e muito afeto.

Foto: Iwi Onodera/UOL

O casamento não será uma cerimônia tradicional. Elas pretendem reunir os mais próximos em um evento simples, como um almoço.
Amor e esporte
Antes do emprego temporário no Rio, Marjorie era gerente na seleção feminina de rúgbi. Foi lá que elas se conheceram, quando Isadora veio ao Brasil passar por um processo seletivo para a equipe. Filha de pais brasileiros, a atleta nasceu em Nova Jersey e havia visitado o país uma única vez, aos 9 anos, para passar um tempo com a avó paterna, apesar de manter contato frequente por telefone com a família.

Ela jogava rúgbi na universidade e em clubes, quando ficou sabendo da convocação para brasileiros que moram no exterior e estivessem interessados em competir pelo país. Depois de quatro meses pensando a respeito, Isadora resolveu tentar e foi aceita para passar por testes em São Paulo.

O início da relação delas foi curioso. Marjorie rejeitava a ideia dessa pessoa que chegaria para o time antes mesmo de conhecê-la. Ela ainda lembrava de experiências ruins da equipe com jogadoras estrangeiras pouco comprometidas. Para completar, as burocracias para a chegada de Isadora atrapalharam. A atleta pegou uma folga no trabalho de pesquisa que fazia no hospital da Universidade da Pensilvânia para viajar até Washington e poder tirar o documento de identidade brasileira. Mas o processo desencadeava uma série de erros no sistema, e Isadora saiu de mãos abanando. “Essa pessoa não consegue nem tirar o RG!”, pensava a gerente em São Paulo, que se lançou em um trabalho de investigação sobre a possível nova integrante.

Foto: Iwi Onodera/UOL

Isadora e Marjorie gostam de fazer programas culturais e aproveitavam as viagens da seleção para conhecer museus.
“Eu fuçava o Facebook, queria saber quem era essa gringa. Aí vi uma nerd, que estudou na [Universidade de] Columbia e trabalhava no hospital. E tinha um metro e meio [de altura]. Tá de palhaçada”, falava Marjorie na época. Mas as coisas foram mudando antes mesmo de a atleta chegar ao Brasil. Isadora lançou uma campanha de crowdfunding para ajudar a pagar a passagem e realizar o sonho de jogar profissionalmente. Ali, fisgou a futura namorada, que começou a mudar de opinião. “Vi que ela estava se esforçando para vir”, admite Marjorie.

O dia a dia de treinos e viagens as aproximou. A afinidade pela leitura e cultura e as discussões profundas sobre a vida foram o estopim para o romance. Em vez dos passeios para fazer compras com as demais colegas do time, elas preferiam visitar museus. Marjorie se formou em História pela Universidade de São Paulo, e Isadora fez Biologia e Direitos Humanos - ela também estava se preparando para entrar em processos seletivos de faculdades de Medicina quando decidiu investir no esporte. “A minha experiência aqui está sendo rica, porque eu conheci uma historiadora”, contou Isadora.

O casal gosta de fazer roteiros literários. Quando foram a Salvador, por exemplo, Isadora lia “Capitães de Areia”, de Jorge Amado. Atualmente, está a 50 páginas do fim de “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, livro que tem lido propositadamente aos poucos. Enquanto Marjorie enriqueceu o leque cultural da namorada e colaborou para ampliar a fluência no português, a chegada de Isadora trouxe novas discussões importante para as meninas da seleção de rúgbi.

“Ela trouxe uma influência, de problematizar algumas coisas, discutir o machismo no esporte”, contou Marjorie, orgulhosa. A nova integrante ajudou a conscientizar as colegas sobre o tipo de cobertura feita pela imprensa e as diferenças de investimento dado à modalidade feminina versus a masculina. “As pessoas começaram a ver que podiam se revoltar com isso”, disse Isadora.

As diferenças culturais, no entanto, apareceram em alguns momentos. Questionadas sobre quando começaram a namorar, as duas riem. “Ela me enrolou por três meses!”, comentou Marjorie. Isadora fez questão de se defender: nos Estados Unidos é normal você sair com uma pessoa por um tempo e, depois, conversar sobre se estão namorando. “Não existe um pedido oficial de namoro”, disse a jogadora.

Foto: Iwi Onodera/UOL

O beijo após o pedido de casamento rodou o mundo. A história apareceu em veículos da grande imprensa nacional e internacional, como Associated Press, BBC, CNN, New York Times, Reuters e SportTV, além de jornais de países distantes como Grécia e Dinamarca.
O pedido de casamento surgiu num momento de incertezas quanto ao futuro. O contrato de Isadora com a seleção se encerra nesta semana, e o trabalho de Marjorie para o Comitê Olímpico, no mês que vem. “A única coisa que a gente sabia é que não ia abrir mão uma da outra”, disse a atleta. Marjorie concordou.

Não há planos para uma cerimônia tradicional. A ideia do casal é reunir familiares e algumas amigas mais próximas para uma celebração simples, como um almoço. Com a fama conseguida durante os Jogos, elas têm sentido a pressão popular a respeito do casamento. “Encontrei umas sul-africanas que me reconheceram e perguntaram onde vai ser o casamento. Do jeito que está, vamos ter de fazer um em cada continente!”, brincou Isadora.

Nenhuma das duas teve problemas após sair do armário para as suas respectivas famílias, mas sabem que estão em uma posição privilegiada. Elas esperam que com a visibilidade que a história ganhou possam servir de exemplo para jovens LGBT. “Eu gostaria muito que tivesse acontecido algo assim quando eu era pequena. As pessoas que não passam por isso não entendem como a representatividade faz falta”, comentou Marjorie.

Depois da sessão de fotos e de todo o assédio da grande imprensa mundial, com entrevistas para CNN, Reuters, AP e BBC, entre outros veículos, Marjorie deu o recado: “Ai de você se terminar comigo! Hashtag sem pressão”, riu.
 
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