João Junior para além da pauta LGBT

Carioca acabou se destacando e despontando como o principal candidato da comunidade LGBT com chances reais de ser eleito.

Publicado em 01/10/16 às 16:06

Do Gay1 RJ

João Junior para além da pauta LGBT

Foto: Divulgação

João Junior foi um dos coordenadores da Campanha Nacional pelo Casamento Civil Igualitário no Brasil.
Em 2013 o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo passou a ser oficialmente reconhecido e celebrado em todo o território nacional, graças a resolução 175 do Conselho Nacional de Justiça. Pessoa chave nessa conquista, João Junior, atual candidato a vereador da cidade do Rio de Janeiro sob o número 40.000 foi um dos coordenadores da Campanha Nacional pelo Casamento Civil Igualitário no Brasil, que tornou isso possível.

Na corrida eleitoral da cidade, João acabou se destacando e despontando como o principal candidato da comunidade LGBT com chances reais de ser eleito. Por isso a gente resolveu bater um papo com o João, falar de assuntos, propostas e metas que extrapolam a luta contra a homofobia.

Você tem dois slogans de campanha. Um deles é “De Santa Cruz ao Leblon, uma cidade para todos”. Por que esse tema?
O Rio de Janeiro ainda é uma cidade dividida. Nós ainda falamos da cidade como se ela fosse basicamente o centro e a zona sul. Digo que temos quatro cidades diferentes: a Barra da Tijuca; zona sul; toda a região que vai do Túnel Rebouças até Deodoro e de Deodoro a Santa Cruz. Isso fica nítido na AV Brasil, que fica diferente depois de Deodoro. Nossos legisladores e gestores (municipais e estaduais) não pensam na cidade como um todo quando estão votando o orçamento ou consolidando políticas públicas. Ignoram as especificidades dos bairros. Construíram uma estação de trem gigante na Vila Militar e “esqueceram” Realengo, onde moram quinze vezes mais pessoas. Usaram a construção da TransBrasil como desculpa para recapear parte da Av Brasil, mas só no trecho onde iria passar a delegação Olímpica, sendo que os trechos mais críticos da avenida são exatamente nos bairros de Realengo, Bangu, Vila Kennedy, Campo Grande etc, que continuam horríveis. Um vereador precisa conhecer a cidade toda e destinar orçamento e fiscalizar a prefeitura com essa perspectiva.

João Junior para além da pauta LGBT

Foto: Divulgação

"Quando me assumi gay e vi que eu era um cara atraente para os outros caras, eu me achei o máximo".
Como foi se descobrir gay e como você acha que isso pode influenciar positivamente sua atuação como vereador?
Me descobrir gay foi sofrido. Me assumir foi maravilhoso. No geral tomamos consciência plena da nossa orientação sexual na adolescência, durante a puberdade. Nessa fase da vida eu era muito religioso, uma religião que proibia até a masturbação. Foi difícil. Não tinha com quem compartilhar essa parte da minha existência, as angustias, dúvidas, isso foi ruim. Quando me tornei adulto e pude conquistar uma mínima independência financeira consegui sair de casa e isso foi fantástico. Na adolescência eu me achava feio, estranho, por que não tinha o menor talento para as meninas. Quando me assumi gay e vi que eu era um cara atraente para os outros caras, eu me achei o máximo (risos). No mundo gay tem essa coisa do “negão”, que por mais que hoje até questione essa objetificação do corpo negro, para quem se achava o mais feio de todos eu soube usar a meu favor e fortalecer minha autoestima. Isso permite que eu não tenha um olhar maniqueísta sobre nada. Fui aprendendo que cada pessoa tem suas batalhas individuais dentro dessa selva que é uma cidade como o Rio. Sei o peso que os estigmas tem sobre as pessoas. Para pensar políticas públicas de assistência social ou educação isso é fundamental, por exemplo.



Transporte é um tema forte nessas eleições, qual são suas propostas e sua visão sobre o tema no Rio de Janeiro?
Apoio integralmente a abertura urgente de uma CPI dos transportes na cidade. Temos que descobrir de fato por que nossa passagem de ônibus é tão cara se as empresas estão gastando cada vez menos. Se temos orçamento para levar o VLT até a Gávea como diz a atual gestão, por que não construímos um VLT na estrada do Mendanha em Campo Grande, que irá beneficiar quem mais precisa de transporte púbico?

A grande maioria das pessoas que utiliza as bicicletas como meio de locomoção são pessoas com renda de até três salários mínimos, mas não temos uma ciclovia que liga o centro a zona norte. Nossa política de transporte é pensada primeiro visando o lucro das empresas. O direito de ir e vir das pessoas não é pensado como um direito, mas como um produto. Na campanha fizemos um vídeo bem legal com a Mídia Ninja questionando por que não tem ciclovia do centro até o Méier.

A cidade do Rio é linda, mas tem um grave problema de segurança pública, o que a gestão municipal pode fazer a respeito?
Nossa guarda municipal está orientada de forma errada. A prefeitura se omite completamente em relação aos abusos de alguns agentes. O foco hoje tem sido a inibição dos vendedores ambulantes. Na mesma avenida, diariamente, temos dez guardas municipais agredindo um camelô e do outro lado da rua uma pessoa sendo assaltada ou furtada. A guarda municipal não precisa andar armada para fazer seu patrulhamento pelas ruas da cidade, mas ela precisa ser organizada com inteligência tática focando a manutenção da sensação de segurança da população. Os vereadores tem o papel de fiscalizar isso.



No seu vídeo sobre a região da Central do Brasil você dá sugestões práticas para a prefeitura melhorar o local? Por que você acha que essas medidas não foram tomadas até agora?
A grande maioria dos problemas da região da Central do Brasil são graças ao completo abandono que o local recebeu por parte da cidade. Não temos guardas municipais à noite por exemplo. Isso tem que mudar. Não foi feito porque é uma região utilizada majoritariamente por pessoas assalariadas. Não existe, até o momento, nenhuma vontade política em melhorar a região e proteger as pessoas. Até as calçadas são mal feitas, as pessoas esperam pelos ônibus no meio da Av Presidente Vargas. As pessoas ficam ali expostas esperando os ônibus rezando para não serem vítimas do próximo arrastão, que são diários. Fomos gravar lá e a todo o momento alguém nos dizia: cuidado com a câmera por que aqui te roubam e te matam e não tem policiamento. Os comerciantes denunciaram que eles mesmos precisam pagar alguém para varrer a calçada que é pública, a cidade tem uma empresa pública, a COLURB para fazer isso.

Como você está vendo essa disputa eleitoral?
Estou muito feliz com o tamanho que nossa campanha vem ganhando, mesmo com as dificuldades do tempo curto e financeiras, é maravilhoso a possibilidade de falar diretamente com as pessoas. É gratificante poder mostrar que é sim possível mudarmos o quadro representativo da cidade. Colocar alguém mais parecido com as pessoas lá e que terá um compromisso real com elas, com seu bem estar. Ao mesmo tempo temos que enfrentar uma serie de desigualdades políticas e financeiras. Forças muito obscuras que nunca tiveram nenhum comprometimento com o chamado campo progressista estão se valendo de milhares de reais para tentar impor uma narrativa fake de que pertencem e esse campo. Tem candidato fake falando “eu sou da favela tal”, mas mora em uma mansão na zona sul do Rio dentro de área de preservação. Tudo isso com a conivência de alguns militantes sérios que deixam isso acontecer por que representam os interesses de uma corrente partidária que está louca querendo se apropriar de uma estrutura legislativa para fazer dessa estrutura sua fonte de subsistência financeira. Algumas dessas “candidaturas” tentaram usar as mesmas armas caluniadoras contra nós, que os reacionários se utilizam historicamente contra negros e gays, olha que coisa.

Ao mesmo tempo é emocionante ver como uma candidatura como a nossa que contou com pouco mais de R$ 9.000,00 pode chegar a tantas pessoas em relação às candidaturas fakes com R$ 200.000,00 ou até 300.000,00 que dispuseram para uma candidatura para vereador. Isso tudo está graças sendo graças aos muitos voluntários e voluntárias que viram em nós uma representatividade legítima. Por isso nosso segundo slongan é: Somos 40 mil contra o machismo, o racismo e a homofobia.

Por fim, como o eleitor poderia te definir?
Sou um homem, progressista, negro, gay, mestre em Antropologia e Sociologia pela UFRJ. Nascido e crescido no bairro de Realengo, subúrbio do Rio. Fui um dos coordenadores da bem sucedida Campanha Nacional pelo Casamento Civil Igualitário, que conseguiu a regulamentação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. Sou o criador da campanha #NossaFamíliaExiste contra o “Estatuto da Família”. Fui um dos articuladores da ação que está no STF e que busca equiparar a homofobia ao racismo e estou na linha de frente da ação que quando aprovada pelo Supremo, irá derrubar a proibição que ainda existe e que impede homens homossexuais de doarem sangue. Não gosto do termo “figura pública”, pois nas redes se tonou sinônimo de “celebridade”. Como vereador, serei um servidor municipal. Alguém que coloca as suas qualidades, formação e experiência a serviço da cidade. Entendo muito da pauta LGBT e também do sistema de transporte, projetos de lei e a estrutura da máquina pública. Meu número é 40.000!

 
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