Aeronáutica acusa aluno que protestou contra a homofobia de cometer transgressões

A nota da instituição cita que dentre as transgressões, estão a apresentação do uniforme em desalinho e a não utilização correta da farda.

Publicado em 22/12/2016 às 18:51

Do Gay1

Aeronáutica acusa aluno que protestou contra a homofobia de cometer transgressões

Foto: Reprodução

Aluno levava palavras de protesto contra o ITA por homofobia, machismo e elitista.
O Ministério da Aeronáutica divulgou, nesta quarta-feira (21/12), uma nota rebatendo todas as acusações feitas por Talles de Oliveira Faria, 24 anos, que foi à formatura da turma de engenharia do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) usando vestido e salto alto como forma de protesto contra a homofobia. Segundo a instituição, Faria é ex-aluno "civil", e teria cometido "diversas transgressões disciplinares", que seriam "passíveis de punição e se aplicariam a qualquer militar". A nota cita que "dentre tais transgressões estão a apresentação do uniforme em desalinho e a não utilização correta do uniforme".

Desde a cerimônia, ocorrida no sábado passado, e presidida pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, a aparição de Faria com vestido e salto foi um dos assuntos mais comentados na internet. O engenheiro tem dedicado grande parte do tempo em responder e postar novas mensagens nas redes sociais, mostrando que o ITA e o ambiente militar são "homofóbico, com reações violentas, de menosprezo e desrespeito" à diversidade sexual de seus alunos.

O ministro Jungmann não comentará o assunto, segundo informaram seus assessores.

Faria diz, ainda, que seu objetivo principal é levar os militares a repensaram as rígidas regras dos quartéis e a promover mudanças. De acordo com ele, “começar ensinando as crianças a respeitar a diversidade do outro, que não se deve esconder a orientação sexual”, é primordial.

Ainda segundo a Aeronáutica, apesar de dizer que foi pressionado, Faria teria feito a opção por formar-se como engenheiro civil e não como engenheiro militar. “Ele alega ter sido pressionado a fazer tal requerimento, no entanto, esta foi uma decisão unilateral do próprio ex-militar, com a intenção de permanecer cursando o ITA, uma vez que as diversas transgressões disciplinares que cometeu levariam a um comprometimento de sua avaliação como militar”, diz a nota. Faria teria, posteriormente, pedido para fazer mestrado no ITA, o que, segundo a instituição, comprova que ele considera a escola um ambiente satisfatório para suas futuras atividades acadêmicas e desenvolvimento profissional.



Redes sociais
Faria teria tido uma "conduta inadequada” nas redes sociais, “ocasiões nas quais desrespeitou símbolos nacionais e relacionou a Instituição a assuntos político-partidários, sexuais e religiosos, foi também objeto de apuração, no entanto, o engenheiro Talles não sofreu punição por este motivo”, ainda de acordo com a nota.

Esta é o segundo comunicado dos militares sobre o assunto. Na última segunda-feira, a Força Aérea Brasileira (FAB) fez uma divulgação em nome do ITA, repudiando qualquer ato de homofobia e discriminação dentro da entidade. "O ITA não questiona, nem registra a orientação sexual de seus alunos e formando, e não discrimina alunos por sua orientação sexual, gênero, condição social, credo ou raça", disse, na ocasião.

Leia a íntegra da nota divulgada:

"Inicialmente, é importante esclarecer que o ITA tem alunos militares e civis, sendo que enquanto o segundo grupo participa estritamente da formação acadêmica, o primeiro cumpre atividades militares e, portanto, subordinado às regras específicas para os militares.

Muito tem sido veiculado na imprensa sobre as alegações do recém-formado engenheiro pelo ITA e ex-militar Talles de Oliveira Faria, acerca de uma provável retaliação por parte da instituição, em função de sua opção sexual. Quanto a isso, cabe-nos esclarecer alguns fatos:

Em fevereiro de 2016, o ex-aluno requereu formalmente o licenciamento do serviço ativo da Aeronáutica. Dessa forma concluiu com sucesso seu curso superior como aluno civil. Ele alega ter sido pressionado a fazer tal requerimento, no entanto, esta foi uma decisão unilateral do próprio ex-militar, com a intenção de permanecer cursando o ITA uma vez que as diversas transgressões disciplinares que cometeu levariam a um comprometimento de sua avaliação como militar.

Cabe ressaltar que as transgressões cometidas pelo então aluno são passíveis de punição e se aplicariam a qualquer militar. Mais importante ainda é salientar que a abertura dos processos de apuração de transgressão disciplinar nada tem a ver com a sua orientação sexual, mas sim com a conduta e atitudes assumidas pelo Engenheiro Talles, as quais sujeitariam qualquer militar à punição.

Dentre tais transgressões estão a apresentação do uniforme em desalinho e a não utilização correta do uniforme. Cabe ressaltar que as punições para estas transgressões estão previstas nos regulamentos militares.

A conduta inadequada nas redes sociais, ocasiões nas quais desrespeitou símbolos nacionais e relacionou a Instituição a assuntos político-partidários, sexuais e religiosos, foi também objeto de apuração, no entanto, o engenheiro Talles não sofreu punição por este motivo.

Relembramos que a carreira militar é composta de prerrogativas, direitos, deveres e obrigações, desta forma, todos os militares são submetidos às regras que conduzem sua rotina e sua conduta. O engenheiro Talles de Oliveira Faria era consciente de seus deveres e também de seus direitos, no entanto, apesar de gozar de seus benefícios, não cumpriu plenamente seus deveres como militar da Força Aérea Brasileira.

Outro aspecto a ser salientado é o fato de o engenheiro Talles ter entrado com requerimento para a realização de mestrado no ITA, o que comprova que ele considera a escola um ambiente satisfatório para suas futuras atividades acadêmicas e desenvolvimento profissional.

Sobre o suposto monitoramento de mídias sociais, não há uma busca ativa pelos perfis dos alunos. Contudo, pelas próprias características dessas mídias, publicações de alta repercussão acabam se tornando de conhecimento da chefia de qualquer organização e podem ser levadas em consideração na apuração de um processo disciplinar, como acontece inclusive em organizações civis.

Por fim, diante de todas as oportunidades oferecidas ao ex-aluno, a Aeronáutica julga que disponibilizou opções para que pudesse prosseguir com seus objetivos acadêmicos dentro de uma das mais renomadas instituições de ensino do país. Esse fato pôde ser comprovado no último sábado, durante a cerimônia de formatura, ao entregar a Talles seu diploma de engenheiro da computação."
 
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